September 07, 2010, 08:24:36 AMLatest Member: Guanobe

Author Topic: Khalim  (Read 52 times)

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Offline Sopne Mesog

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Khalim
« on: July 20, 2010, 05:31:29 PM »


A maior de todas as dores não machuca a carne ou envenena a alma. Ela arranca completamente seu desejo de viver transformando-o em um morto-vivo.



            Agradecimentos

            Dedico este livro a meus familiares e amigos que me deram força e coragem para continuar escrevendo. Espero um dia conseguir retribuir todo esse investimento e paciência que tanto me tem sido dado. Especialmente à minha mulher.



            Prólogo

            Você algum dia já foi chamado de monstro? Eu já.
            Eu tinha sete anos e estava correndo pela noite. Meus olhos ardiam, não conseguia mais chorar, mas também não poderia mais parar. Minha tia dizia que quando chovia, Deus chorava. Deus... Por que não choras por mim? Escondo-me no velho celeiro, lutando para parar de soluçar e então percebo, estou rezando. Deus, você está ai? – uma sombra surge da entrada do celeiro. Deus não me responde. A sombra se aproxima e revela a lamina vermelha com que matara minha mãe. Deus não me responde.  Sem demora e sem aviso, minha respiração para e sinto frio então dor. Sou puxado e pendurado como um animal pela perna, não tenho mais forças para chutar. Deus? Eu caio imóvel no chão. A sombra avança. Esta tirando algo que usa, continua se aproximando. Eu não me mexo e a sombra beija meu rosto e lambe minha boca. Deus. Eu não sinto e então quando a sombra pouco se vira, avanço sem pensar e a mordo. Ela não grita. Mordo mais e mais forte, seu sangue escorre por minha garganta como água. Mas ela não grita e mesmo quando finalmente tomba eu não paro de morder mais e mais forte. E então ela finalmente suspira: "Deus esta na chuva".  Percebo finalmente a luz da noite a iluminando.  Eu choro. A sombra é minha tia. E não estava chovendo.
            Por quê? Eu tremia e chorava sem fim e não sabia o que fazer. Gritava incontrolavelmente a pergunta ao cadáver de minha tia. Não havia resposta. Apenas um olhar vazio. E sentindo finalmente minha mente turvar, olho uma ultima vez para minha casa, queimando a luz do luar. Deus onde você está?
« Last Edit: July 26, 2010, 03:28:10 PM by Sopne Mesog »

Offline Sopne Mesog

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Re:Khalim
« Reply #1 on: July 20, 2010, 08:59:59 PM »
            Capitulo 1

            Eu não o vejo, mas ele me olha diretamente nos olhos. Posso sentir. Ignorando completamente meu corpo nu coberto por cicatrizes, queimaduras e cirurgias. Me olha como ninguém mais me olhou em anos, mas eu não sinto medo, não sinto dor ou angustia.
            – Faz quanto tempo desde que vim aqui?
            A única coisa que sinto é um vazio. Ele sabe disso. Escolhe as palavras exatamente como uma serpente que toma cuidado ao se aproximar da presa.  Sabe que aqui não existe tempo. Nenhuma janela com o dia ou noite. As paredes frias e as correntes que me prendem são minha única companhia. Sempre foram. Dele é a única voz que já ouvi neste lugar.
            – Você entende por que esta aqui? Assassinato da própria família, parentes e amigos. Dezessete pessoas estripadas em uma só noite. Espalhadas por toda uma fazenda em chamas. Sua sentença não é a morte.  É envelhecer aqui dentro. Acordar com um banho de óleo quente. Apanhar na escuridão sem nunca saber quem bate, sem nunca poder revidar. Receber um animal vivo e esfomeado por dia, para que você ou ele morram e um possa se alimentar do outro. Ir dormir sentindo um frio tão forte que mais parece querer arrancar os ossos de seu corpo. Você ao menos se lembra do que é olhar para o céu, sentir uma brisa macia como a mão de um pai alisar seu rosto enquanto você contempla o maior espetáculo que você já viu em toda sua vida: O nascer do sol, quente e vivo, acolhedor como o colo de uma mãe. Você faz alguma idéia do que é viver além destas paredes?
            Eu nunca percebi o valor do que tinha antes de perder. Ninguém percebe. Ninguém nota a complexidade de sua vida, a magia que acontece a cada segundo, o quanto a pessoa amada realmente vale. Não. As pessoas vivem suas vidas sem se dar conta do que realmente significaria "viver" e quando descobrem, assim como eu, fazem de tudo para voltar no tempo, mesmo que seja por um único segundo, só para dizer para a pessoa do seu lado, a pessoa amada, o que estava guardado no peito. O quanto o seu olhar, sua voz, sua presença vale e realmente significa. E assim como eu descobrem que o tempo não volta atrás, não pode ser guardado em um saquinho ou preservado do lado. O tempo não espera ninguém. Nunca.
            – Então você sabe que eu sou sua única forma de sair daqui. Você vai cooperar?

            1
« Last Edit: July 22, 2010, 01:49:43 PM by Sopne Mesog »

Offline Sopne Mesog

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Re: Khalim
« Reply #2 on: August 20, 2010, 11:19:01 PM »
            Sinto nojo de quem não entende isso.
            - Não. – Respondo e ele respira fundo. Claramente com raiva. Então finalmente me soca. Agarra meu cabelo com tremenda força, querendo arrancá-lo assim como fez com a pele de meu rosto. Soca-me novamente, de novo e mais uma vez. Mas eu não caio. As correntes frias, presas ao teto, me sustentam como um cadáver.
            - Você gosta não é mesmo?
            Meu corpo treme incontrolavelmente, não consigo controlar. Mas não é medo que eu sinto, não é raiva ou o vazio habitual. Não. Sinto meu coração bater loucamente e mesmo a dor e a agonia não são superiores. Ele percebe e me bate furiosamente. Sua raiva o domina como uma droga. Respira ódio como um cão do inferno e só para quando eu finalmente paro de tremer. Observa em silencio o sangue que me foge, que escorre por mim como suor. A dor é tremenda, um zumbido em minha cabeça parece querer fazê-la explodir, a pele queima como brasa. A agonia de não conseguir abaixar os braços, de querer me tocar é indescritível, ranjo os dentes tentando me controlar inutilmente e então recomeço a tremer. Ele se irrita ainda mais, sua respiração denuncia: a paciência está no limite. Mas eu não consigo parar. Não dá. Me contorço, mas a sensação volta a me dominar. Humilha a dor e qualquer sentimento então eu finalmente gargalho incontrolavelmente!
            - Sabe não precisa ser assim, tudo poderia acabar instantaneamente. Basta me dar o que quero.
            A raiva o domina ainda mais. Consigo sentir claramente a angustia em sua voz. Eu não respondo, fico rindo baixinho e então ele me bate. Mais forte do que jamais bateu. Com seus dedos frios, enfia a mão em minha barriga, força a carne por debaixo de uma costela, agarrando-a e finalmente a quebra. A dor me faz gritar como um animal enlouquecido.
            - Os nomes... Por favor?
            Eu não paro de gritar. Nem por um segundo. Choro enquanto grito. Engasgando-me com meu próprio sangue não consigo achar ar para respirar e finalmente começo a rir.
            - Você não vai me contar não é mesmo?
            - Não. – Respondo gargalhando.
            Ele volta a por as mão em mim. E quebra a segunda costela. Não tenho mais forças para gritar, tudo o que sai são lagrimas e grunhidos selvagens. Então, subitamente a porta de minha cela explode!

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« Last Edit: August 22, 2010, 09:34:57 PM by Sopne Mesog »